19 de junho de 2009

O doce que ela vendia
Não tinha açúcar somente...
Tinha outro ingrediente,
Que no peito se escondia.
Inocente — Eu não sabia...
Por isso, freqüentemente,
Depois do almoço, eu comia
Aquele docinho quente,
Bem crente que me valia,
Assim, de modo patente,
A sobremesa do dia.
A cada doce eu sentia
Algo um pouco diferente...
À tarde — um bom-bom de nozes,
À noite — um sorriso quente,
Que na boca derretia.
E o meu coração fremente,
A cada hora mais forte,
Palpitava pela moça,
Que aquele doce vendia.
Era amor adolescente,
Um amor de livraria,
Veloz, apressado, urgente,
Amor meigo, inconseqüente,
No meio daquela gente,
No meio da euforia,
Amor sensível, pungente,
Que aflorava à revelia,
Povoava a minha mente,
E o coração preenchia.
Era, de fato, um presente,
Uma alegria contente,
O amor que entre nós surgia.
Contudo, esse amor ardente
Tornou-se meu penitente,
Meu carrasco, minha harpia,
Minha dor, minha serpente,
E o meu maior delinqüente.
Roubou, de mim, a alegria
De amar no meio da gente,
De amar em plena euforia,
Como faz o adolescente.
Tirou, de mim, friamente,
O doce que eu mais queria,
O meu último pedaço,
Minha última fatia...

Carlos Eduardo Drummond

5 comentários :

Anônimo disse...

Oi, Carlos,

o Jorge me deu a dica do seu blog e, pelo visto, ela foi ótima. Adorei seu texto e cheguei quase a sentir o cheirinho quente do doce. Você está de parabéns e, vez, em quando, vou zandar pelo seu espaço.
Abraço,
Sandra Machado

Anônimo disse...

descukpe (rsrsrsrs) a troca de letra, eu queria dizer "zanzar"...

C. E. Drummond disse...

Oi, Sandra... fico feliz por ter gostado. Sua visita será sempre bem-vinda!
Abraços,

Raquel disse...

Oi Carlos,
Linda poesia...e como nos faz lembrar o quão bom é amar com a inconsequência dos adolescentes... a maturidade vem carregada de prudência e nos leva a ousadia...

C. E. Drummond disse...

Puxa, Raquel... obrigado pelo comentário. Você captou o clima da poesia...Um grande beijo,