15 de outubro de 2014


João do Pandeiro, morador de morro e compositor de Samba-Enredo, fez um samba sozinho e inscreveu no concurso de sambas de sua escola de coração. Perdeu na final, uma semana depois da inscrição. Para compor, inscrever e participar da disputa, não gastou mais que duas cervejas. No outro ano, encontrou um amigo bom de melodia e os dois compuseram novo samba. Dessa vez, ganhou, interpretando, ele próprio, o samba. E gastou apenas quatro cervejas. Nos concursos seguintes, João percebeu que não ganhava mais. Reparou também que os sambas inscritos eram assinados por pelo menos dois compositores. E, curiosamente, os que ganhavam tinham bons cantores. João, então, decidiu convidar um intérprete para cantar seus sambas. Chegou à final novamente, mas não ganhou. Gastou as cervejas e o preço acertado com o cantor. No ano seguinte, caprichou no samba outra vez e contratou um cantor de apoio. Ganhou de novo. Porém, gastou bem mais. O tempo passou e João voltou a perder. Viu, então, que os sambas vencedores tinham pelo menos dois cantores, um surdo, um violão, além do cavaquinho. E havia gente torcendo por eles. João, então, resolveu convidar Seu Manoel da Padaria para assinar o samba com ele, porque os custos seriam maiores. Seu Manoel, muito vaidoso, aceitou. Com três compositores, e um bando de portugueses na torcida, o samba de João chegou à final e ganhou de novo. Festa na padaria. João gastou, mas Seu Manoel gastou muito mais. Outras derrotas vieram. E João começou a ficar desiludido. Coincidentemente, os sambas vencedores levavam pelo menos quatro bons cantores, um ônibus com torcida, papel picado e bandeiras. João precisou convidar Seu Manoel da Padaria, Seu Jorge do Açougue, além de Marcinho Professor, que dava aula para três turmas lotadas de jovens apaixonados por samba. E convidou também o Rogerinho da Viação Flecha, porque conseguia ônibus de graça. Seu samba chegou à final, após oito semanas de apresentações e quadra lotada. Que festa! E o samba de João venceu novamente. O prêmio foi alto, mas depois de fazer a divisão entre os colaboradores, e abater os gastos, sobrou apenas o orgulho pela vitória. João voltou a perder nos anos seguintes. Observou que depois de treze apresentações, todas as parcerias finalistas eram formadas por pelo menos vinte pessoas, roupas padronizadas, torcidas organizadas (e bem alimentadas), papel picado, alegorias, bandeiras, bolas caindo do teto, bomba de serpentina, fogos de interior, telão de led, carro de som, canhão de luzes, danças coreografadas, faixas e adesivos com o refrão, além de quinze mil prospectos e cinco mil CDs distribuídos durante todo o concurso. A neta de João disse a ele que o samba campeão havia sido muito bem comentado nas redes sociais e que tinha feito um clipe que bombou no youtube durante toda a disputa. João não acessava a Internet. Ficou desiludido mais uma vez. No último ano, apenas quatro parcerias tiveram coragem (e orçamento) para se inscrever na disputa, e todas com compositores mesclados de outras escolas. Na lista de compositores inscritos, havia seis cantores de renome, um jogador de futebol, vinte e cinco empresários e um político. João assistiu à vitória de um samba que gastou o equivalente a um imóvel e levou mil pessoas à quadra na final... cantando. E João, que ainda morava de aluguel, concluiu que não dava mais para ele. Os sambas dele já não tocavam mais na quadra porque não se encaixavam no formato novo. João morreu no dia de uma final de sua escola de coração. Mas nem sequer foi feito o minuto de silêncio. O cara responsável estava ocupado no celular, tentando acessar a rede wi-fi, para publicar uma foto com a rainha de bateria, enquanto o cantor da Escola interpretava os versos: Não deixa o samba morrer....  

Carlos Eduardo Drummond


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